Oito coisas sobre a coisa preta sob nossos pés

DC·68 Deep Cuts
Uma gota de piche está caindo desde 1927

Uma gota de piche está caindo desde 1927

Em 1927 um físico selou um pedaço de piche num funil de vidro para provar uma coisa: essa matéria negra e quebradiça, que se estilhaça feito vidro sob um martelo, é na verdade um líquido, só que absurdamente lento — cerca de cem bilhões de vezes mais espesso que a água. Quando o gargalo do funil foi cortado em 1930, começou a pingar. Quase um século depois, só nove gotas caíram; a nona se soltou em abril de 2014. É o experimento de laboratório mais longo da Terra.
Os famosos poços de piche são na verdade asfalto — e continuam famintos

Os famosos poços de piche são na verdade asfalto — e continuam famintos

Os poços de piche de Los Angeles não são piche, e sim asfalto: a borra mais pesada do petróleo cru, que aflora pelas falhas a partir de um reservatório subterrâneo. Por cinquenta mil anos funcionou como uma armadilha: os animais pisavam, ficavam presos e eram preservados. Mais de 3,5 milhões de fósseis, de mamutes a tigres-dentes-de-sabre e lobos-terríveis, já saíram dali. As exsudações continuam ativas em plena cidade, borbulhando enquanto o gás metano empurra através da lama negra.
Existe um lago de asfalto que se reabastece sozinho

Existe um lago de asfalto que se reabastece sozinho

Na ilha de Trinidad fica o maior depósito natural de asfalto do mundo — cerca de quarenta hectares de piche negro, com uns setenta e cinco metros de profundidade, guardando uns dez milhões de toneladas estimadas. Um explorador calafetou seus navios ali em 1595, elogiando um piche que "não derrete com o sol". É explorado há mais de um século e, mesmo assim, continua se reabastecendo: uma falha profunda empurra material rico em petróleo lá de baixo, e o lago vai fechando as próprias cicatrizes.
As estradas lisas nasceram de um barril de alcatrão estourado

As estradas lisas nasceram de um barril de alcatrão estourado

A estrada asfaltada com alcatrão veio de um feliz acaso. Em 1901 um engenheiro passou por um ponto perto de uma siderúrgica onde um barril de alcatrão tinha caído de uma carroça e se aberto, e alguém havia jogado escória de forno sobre aquela meleca pegajosa. Ele reparou que aquele trecho estava sem poeira e sem sulcos, enquanto o resto da estrada era um lamaçal revolvido. No ano seguinte patenteou o método de misturar alcatrão com escória triturada, e a estrada de cascalho sufocada de poeira começou a sumir.
As marinhas de guerra funcionavam com alcatrão cozido de tocos de pinheiro

As marinhas de guerra funcionavam com alcatrão cozido de tocos de pinheiro

Antes do petróleo, o alcatrão que impermeabilizava os navios de madeira vinha da floresta. Tocos e raízes de pinheiro ricos em resina eram empilhados em fornos de terra e queimavam lentamente quase sem ar, suando um alcatrão escuro que era recolhido e posto em barris. Classificado num porto do norte, o de melhor qualidade ficou conhecido como alcatrão de Estocolmo. Ele vedava cascos, conveses e cordames contra o apodrecimento e, no fim do século XVII, o alcatrão era o terceiro produto de exportação mais valioso da Suécia.
Os dormentes de ferrovia podem durar mais que quem os assentou

Os dormentes de ferrovia podem durar mais que quem os assentou

O revestimento preto e acre dos velhos dormentes de ferrovia e dos postes de telégrafo é creosoto, destilado do alcatrão de hulha e usado para conservar a madeira desde a década de 1830. Encravado fundo na madeira, envenena os fungos e insetos que a apodreceriam, de modo que um dormente ou poste tratado aguenta décadas de intempérie. Um poste tratado dura em média uns setenta e três anos; o mais antigo já registrado continuava de pé depois de cento e cinquenta e quatro.
A primeira impermeabilização veio de exsudações naturais de alcatrão

A primeira impermeabilização veio de exsudações naturais de alcatrão

Muito antes das refinarias, o betume brotava naturalmente às margens do Tigre e do Eufrates, e os povos da Mesopotâmia o puseram para trabalhar. Misturavam-no à argamassa dos tijolos para deixar as paredes mais fortes e estanques, erguendo zigurates com ele, e o passavam por dentro e por fora dos barcos de junco para vedar os cascos frágeis. Um barco de junco revestido de betume encontrado no Kuwait data de cerca de 5000 a.C. — uma das impermeabilizações mais antigas que se conhecem em toda a Terra.
O México antigo vedava suas canoas com alcatrão natural

O México antigo vedava suas canoas com alcatrão natural

Do outro lado do mundo em relação à Mesopotâmia, o asfalto natural aflorava ao longo da costa do Golfo do México, e os olmecas e os povos que vieram depois o prezavam. Usavam o piche negro para impermeabilizar canoas e jangadas, para colar e decorar objetos e até como incenso e goma de mascar. Um pedaço de uns doze centímetros de largura, enterrado ao lado de um corpo há mais de três mil anos, mostra que era transportado e comercializado como um bem valioso.
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