Oito coisas entre o fruto e a barra

DC·67 Deep Cuts
As flores do chocolate brotam direto do tronco da árvore

As flores do chocolate brotam direto do tronco da árvore

O cacaueiro quebra a regra de sempre, a de que as flores ficam na ponta dos galhos. Suas florzinhas rosa e branca, e os frutos pesados que vêm depois, brotam direto do tronco nu e dos galhos mais velhos, um hábito chamado caulifloria. Há um motivo estrutural: um fruto maduro pode pesar até meio quilograma, peso demais para um galhinho fino aguentar. A mesma árvore costuma carregar flores, frutos novos e frutos maduros ao mesmo tempo, o ano inteiro.
Seu chocolate depende de um mosquitinho do tamanho de uma cabeça de alfinete

Seu chocolate depende de um mosquitinho do tamanho de uma cabeça de alfinete

As flores do cacau são quase impossíveis de polinizar. São minúsculas, cheias de detalhes e ficam penduradas voltadas para baixo, e as abelhas praticamente as ignoram. O trabalho sobra para mosquitinhos não maiores que uma cabeça de alfinete, que se enfiam nelas ao amanhecer e ao entardecer. Mesmo assim, falham na maioria das vezes: em muitas fazendas, só uns poucos por cento das flores, às vezes bem menos de um por cento, chegam a virar fruto. Uma única árvore pode abrir milhares de flores e amadurecer apenas algumas dezenas.
O bom chocolate estala por causa de um único formato de cristal

O bom chocolate estala por causa de um único formato de cristal

A manteiga de cacau pode endurecer em seis estruturas de cristal diferentes a partir da mesma gordura. Só uma delas, conhecida como forma cinco, dá ao chocolate o brilho lustroso, o estalo firme e aquele jeito de derreter limpinho logo abaixo da temperatura do corpo. A temperagem é o paciente esquentar e esfriar que conduz a gordura até essa única forma. Erre a mão e os outros cristais tomam conta, deixando uma barra opaca e esfarelenta que lambuza e derrete na mão.
Por quase toda a sua história, o chocolate foi uma bebida

Por quase toda a sua história, o chocolate foi uma bebida

Durante a maior parte de seus cerca de quatro mil anos, o chocolate era algo que se bebia, não que se mastigava: uma bebida amarga e espumosa na Mesoamérica e, depois, uma bebida de luxo adoçada nas cortes da Europa. A barra sólida de comer é uma recém-chegada. Só em 1847 um fabricante britânico descobriu que devolver manteiga de cacau extra à mistura de cacau e açúcar dava uma pasta firme o bastante para moldar. A barra no seu bolso é mais nova que a ferrovia a vapor.
A película branca do chocolate velho não é mofo

A película branca do chocolate velho não é mofo

A névoa branco-acinzentada numa barra de chocolate esquecida parece mofo, mas não é: é a própria gordura do chocolate. Quando a barra esquenta e esfria de novo, parte da manteiga de cacau derrete e recristaliza numa forma instável e depois migra para a superfície como uma camada opaca. É totalmente inofensiva: essa camada é só um ingrediente que sempre esteve por dentro, subido ao topo. Um derretimento suave e a temperagem certa trazem o brilho de volta na hora.
O chocolate macio foi um acidente deixado mexendo a noite toda

O chocolate macio foi um acidente deixado mexendo a noite toda

O chocolate antigo raspava na língua. Em 1879, um fabricante suíço em Berna deixou uma máquina de moagem ligada muito mais tempo do que pretendia — um fim de semana inteiro, segundo alguns relatos — e descobriu que o chocolate havia ficado sedoso, brilhante e suave. Essa mexida longa e lenta, hoje chamada de conchagem, mói as partículas até a língua não as sentir mais e deixa as notas ácidas e ásperas evaporarem. O bom chocolate ainda é conchado por até três dias.
As amêndoas de cacau frescas não têm gosto de chocolate nenhum

As amêndoas de cacau frescas não têm gosto de chocolate nenhum

Recém-saídas do fruto, as amêndoas de cacau quase não têm sabor de chocolate. Esse sabor é construído por uma podridão controlada. As amêndoas são amontoadas ainda envoltas na sua polpa branca e doce e deixadas por cerca de cinco a sete dias, enquanto leveduras e bactérias selvagens fermentam a polpa, aquecem a pilha e disparam reações dentro de cada amêndoa que criam os precursores do sabor. Só depois, no torrador, é que esses precursores viram chocolate. Pule a fermentação e as amêndoas continuam amargas e sem graça.
O fruto maduro do cacau não cai, e a cor dele mente

O fruto maduro do cacau não cai, e a cor dele mente

Diferentemente da maioria das frutas, os frutos do cacau não caem quando estão prontos; eles se agarram ao tronco até um trabalhador cortar cada um à mão, com uma lâmina. A cor também não ajuda a avaliar o ponto, porque depende da variedade: alguns frutos amadurecem verdes, outros amarelos, alaranjados, vermelhos ou de um roxo intenso. Os colhedores costumam bater no fruto e ouvir: um som oco significa que lá dentro as amêndoas soltas se desprenderam da casca.
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