Oito coisas cozidas em barro e fogo

DC·36 Deep Cuts
Estes vasos foram pintados com fogo, não com pigmento

Estes vasos foram pintados com fogo, não com pigmento

O preto e o laranja de um vaso grego antigo nunca foram tinta — são a mesma barbotina de argila, queimada três vezes num só forno. Ao deixar entrar ar a cerca de 800°C, a peça inteira fica vermelho ferrugem. Os respiros são vedados e madeira verde é acrescentada a cerca de 950°C, sufocando o oxigênio até a barbotina fundir num preto vítreo. Depois o ar volta a entrar enquanto esfria, devolvendo o vermelho à argila exposta enquanto a barbotina vedada continua preta. Os oleiros atenienses dominaram isso há 2,500 anos; a receita se perdeu e só foi decifrada de novo no século XX.
A Europa levou séculos para desvendar o segredo da China

A Europa levou séculos para desvendar o segredo da China

Durante mil anos, só a China soube fazer porcelana verdadeira — fina, branca, translúcida, soando como um sino. A Europa a importava a preços ruinosos e a chamava de ouro branco. O segredo era uma argila chamada caulim, queimada acima de 1,300°C até virar meio vidro. Um alquimista cativo e um cientista enfim a reproduziram na cidade saxã de Meissen em 1708, queimando a primeira porcelana de pasta dura da Europa — depois disso, o príncipe trancou o método numa fortaleza para impedir que se espalhasse.
Sua melhor xícara de chá é quase metade osso

Sua melhor xícara de chá é quase metade osso

A bone china faz jus ao nome ao pé da letra: a receita inglesa clássica é mais ou menos metade cinza de osso animal calcinado, misturada com argila de caulim e pedra. Queimar o osso deixa fosfato de cálcio, que se cozinha em cristais pequenos o bastante para deixar a luz passar — por isso uma boa xícara brilha quando você a põe contra a janela, e ainda assim é mais resistente e mais branca que a porcelana comum. Um oleiro inglês aperfeiçoou a fórmula por volta de 1794, e desde então é a marca da boa louça.
Esta jarra foi vidrada jogando sal no fogo

Esta jarra foi vidrada jogando sal no fogo

O grês com vidrado de sal ganha sua pele vítrea por um truque brutal: no auge do calor, os oleiros jogam sal comum direto no forno, às pás. Ele vira vapor num instante, o sódio agarra a sílica da argila quente e se funde numa fina camada de vidro, enquanto o cloro escapa pela chaminé. Bolhinhas minúsculas deixam uma superfície marcada, como casca de laranja, que dá para sentir com o polegar. A técnica deu à Europa seus potes e jarras de vidrado de sal, duros e resistentes, do século XV em diante.
A reluzente cerâmica vermelha de Roma não tem vidrado nenhum

A reluzente cerâmica vermelha de Roma não tem vidrado nenhum

Os romanos faziam louça com um brilho vermelho profundo que parece vidrada, mas não é. O lustro é uma barbotina de argila ultrafina — partículas de um mineral rico em ferro tão pequenas e chatas que se assentam em camadas alinhadas, lisas como espelho, e então sinterizam numa pele vítrea a cerca de 1,000°C, abaixo da temperatura que um vidrado de verdade exigiria. As oficinas carimbavam cada peça antes da queima, e foi assim que ganhou o nome: terra sigillata, ou terra selada.
O primeiro barro queimado não foi um pote — foi uma figura

O primeiro barro queimado não foi um pote — foi uma figura

Muito antes de alguém queimar uma tigela, o povo da Era do Gelo já queimava pequenas figuras de barro. O mais antigo objeto de cerâmica queimada que se conhece é uma pequena figurinha feminina modelada, vinda da Morávia, endurecida numa fogueira há cerca de 29,000 anos — uns 14,000 anos mais velha que os primeiros potes de barro. Foi encontrada partida em duas no meio das cinzas de uma antiga lareira, onde o choque térmico da queima provavelmente a havia rachado muito tempo atrás.
Os gregos votavam seu exílio em cacos de cerâmica

Os gregos votavam seu exílio em cacos de cerâmica

Na Atenas antiga, os cacos de cerâmica quebrada eram o papel de rascunho do mundo — baratos, por toda parte e quase indestrutíveis. Uma vez por ano, os cidadãos podiam riscar um nome num caco e jogá-lo num monte; se 6,000 cacos nomeassem o mesmo homem, ele era mandado para o exílio por dez anos. Os cacos se chamavam ostraka, a raiz da palavra ostracismo. Arqueólogos certa vez desenterraram um conjunto de cerca de 8,500 dessas antigas cédulas num único depósito de lixo ateniense.
O primeiro vidrado caiu do fogo por acaso

O primeiro vidrado caiu do fogo por acaso

Os primeiros vidrados não foram inventados: pousaram. Num forno a lenha que queima por dias, a cinza que voa se assenta sobre as peças e, a cerca de 1,300°C, derrete numa camada natural de vidro, com veios e poças por onde correram a chama e as brasas. Os oleiros notaram o efeito e aprenderam a cortejá-lo. Um forno-túnel tradicional escavado na encosta de um morro ainda funciona assim, e cada queima deixa marcas de cinza e fogo que ninguém consegue prever por completo.
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