Oito coisas que os espelhos andavam escondendo

DC·103 Deep Cuts
Os primeiros espelhos eram vidro vulcânico polido

Os primeiros espelhos eram vidro vulcânico polido

Muito antes do vidro espelhado, as pessoas se viam na pedra. Em povoados neolíticos da Anatólia central — Catalhoyuk e Canhasan —, artesãos desbastavam discos de obsidiana, o vidro vulcânico preto, transformando-os em espelhos por volta de 6000 BCE, lustrando-os com areia e gordura até brilharem. São os espelhos manufaturados mais antigos que se conhece, e todos os exemplares encontrados até hoje vêm do que hoje é a Turquia.
O espelho moderno nasceu de uma reação com açúcar

O espelho moderno nasceu de uma reação com açúcar

Em 1835, o químico Justus von Liebig descobriu como extrair prata de uma solução e depositá-la sobre o vidro numa película de poucos átomos de espessura. Um pouco de nitrato de prata, um tanto de amônia e um açúcar para disparar a reação, e a prata metálica se deposita sozinha no vidro. Pela primeira vez, dava para fabricar espelhos baratos e em escala, transformando o que fora um luxo em algo ao alcance de quase qualquer um.
Fabricar espelhos envenenava aos poucos quem os fazia

Fabricar espelhos envenenava aos poucos quem os fazia

Durante quatro séculos, os melhores espelhos eram revestidos com uma amálgama de estanho e mercúrio: o artesão fazia o mercúrio líquido boiar sobre uma folha de estanho e deslizava o vidro por cima. O resultado reluzente seguia liberando vapor de mercúrio invisível por anos. Os trabalhadores o respiravam todo dia, e a intoxicação crônica por mercúrio — com seus tremores e confusão — virou um risco reconhecido do ofício muito antes de a causa ser compreendida.
Veneza matava o espelheiro que deixasse a cidade

Veneza matava o espelheiro que deixasse a cidade

Os espelhos de Veneza eram tão valiosos que a República guardava a receita como segredo de Estado. Os vidreiros ficavam confinados à ilha de Murano; quem fugia arriscava ver a família presa e assassinos enviados em seu encalço. Quando a França atraiu alguns desertores para ajudar a erguer a Galeria dos Espelhos de Versalhes, com seus 357 painéis, Veneza chegou a tentar envenená-los. O monopólio ruiu mesmo assim.
Este espelho de bronze esconde uma imagem que só a luz revela

Este espelho de bronze esconde uma imagem que só a luz revela

Um makyo japonês, ou 'espelho mágico', parece um simples disco de bronze polido — mas capte a luz do sol em sua face e projete-a numa parede, e surge uma imagem oculta, em geral o desenho moldado em seu verso. O segredo está no polimento: raspar a face deixa ondulações pequenas demais para enxergar, de frações de mícron de profundidade, que reproduzem com exatidão o relevo de trás. Cristãos ocultos já os usaram para projetar imagens proibidas.
Gigantescos 'espelhos' de concreto já escutaram aviões

Gigantescos 'espelhos' de concreto já escutaram aviões

Antes do radar, a costa britânica era guardada por espelhos de som. Em Denge, em Kent, erguiam-se enormes pratos de concreto e um muro curvo de até 70 metros de comprimento, que concentravam o zumbido dos motores de avião distantes num microfone no centro. Num dia sem vento, um operador conseguia ouvir um avião a uns 30 km mar adentro. Aviões mais rápidos e a chegada do radar nos anos 1930 logo tornaram aqueles ouvidos obsoletos.
Os turistas já admiraram paisagens de costas para elas

Os turistas já admiraram paisagens de costas para elas

No século XVIII, o jeito chique de apreciar uma paisagem era ignorá-la. Os viajantes levavam um espelho de Claude — pequeno, escuro, levemente convexo —, davam as costas ao cenário e contemplavam o reflexo. O tom e a curvatura comprimiam a vista em tonalidades suaves e gradações delicadas, fazendo o campo real parecer uma pintura de mestre antigo. O nome vem do pintor Claude Lorrain.
O espelho de um famoso mago era, na verdade, uma relíquia asteca

O espelho de um famoso mago era, na verdade, uma relíquia asteca

John Dee, conselheiro de Elizabeth I, dizia invocar espíritos num reluzente espelho negro. Por séculos sua origem foi um mistério — até que, em 2021, uma análise química da obsidiana a rastreou até Pachuca, no México. É um espelho asteca, ligado ao deus Tezcatlipoca, cujo nome significa 'Espelho Fumegante'; os mexicas poliam a obsidiana em discos para a adivinhação. O de Dee hoje está no British Museum.
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