Como uma palavra vira um ponto no espaço.

SRC·03 Source
Um modelo não sabe ler uma palavra. Então ele a transforma num lugar.

Um modelo não sabe ler uma palavra. Então ele a transforma num lugar.

Para um modelo, cat não são três letras — é um ponto no espaço, com algumas centenas de números. O mais doido: o modelo organiza esses pontos de forma que proximidade signifique semelhança. cat cai a um quarteirão de dog e a uma cidade inteira de Tuesday. O sentido vira um mapa — e esse mapa é um embedding.
A primeira tentativa desajeitada: dar a cada palavra seu próprio interruptor.

A primeira tentativa desajeitada: dar a cada palavra seu próprio interruptor.

cat=[0,,1,,0]{0,1}V,catdog=0\text{cat}=[\,0,\dots,1,\dots,0\,]\in\{0,1\}^{V},\qquad \text{cat}\cdot\text{dog}=0
A codificação óbvia: uma casa por palavra do vocabulário, tudo zero menos um único 1. Mas aí cada par de palavras fica igualmente distante — cat não está mais perto de dog do que de Tuesday. A sobreposição entre elas é exatamente zero. Cinquenta mil casas pra dizer quase nada. Como uma parede de interruptores: um levantado por palavra, cada palavra uma ilha solitária.
A saída: descrever uma palavra com algumas centenas de botões.

A saída: descrever uma palavra com algumas centenas de botões.

catv=[0.21,1.3,,0.07]Rd,dV\text{cat}\mapsto\mathbf{v}=[\,0.21,\,-1.3,\,\dots,\,0.07\,]\in\mathbb{R}^{d},\quad d\ll V
Troque cinquenta mil casas quase vazias por algumas centenas de números reais — coordenadas. Agora uma palavra não é um rótulo, é um lugar, e lugares podem ficar perto ou longe. Cada número é um tom do sentido; juntos, fixam a palavra num ponto. Como luz branca atravessando um prisma: um feixe simples se abre em todo um espectro, cada faixa uma parte diferente da mesma coisa.
Quão próximas estão duas palavras? Meça o ângulo entre elas.

Quão próximas estão duas palavras? Meça o ângulo entre elas.

cosθ=abab\cos\theta=\dfrac{\mathbf{a}\cdot\mathbf{b}}{\lVert\mathbf{a}\rVert\,\lVert\mathbf{b}\rVert}
Pra comparar duas palavras, olhe o ângulo entre os vetores delas, não a distância bruta. Similaridade do cosseno: apontar na mesma direção dá 1 (quase sinônimos), em ângulo reto 0 (sem relação), exatamente opostos −1. A direção carrega o sentido; o comprimento não. Como dois fachos de lanterna: apontados quase juntos quase se fundem; quanto mais largo o ângulo entre eles, menos compartilham.
De onde vêm os números? Da companhia que uma palavra mantém.

De onde vêm os números? Da companhia que uma palavra mantém.

max tmjm, j0 logp ⁣(wt+jwt)\max\ \sum_{t}\sum_{-m\le j\le m,\ j\ne 0}\ \log p\!\left(w_{t+j}\mid w_t\right)
Ninguém ajusta as coordenadas na mão. O modelo lê oceanos de texto e empurra o vetor de cada palavra pra prever as palavras ao redor dela. Palavras que aparecem na mesma companhia vão se juntando — cat e dog viram vizinhas porque andam com os mesmos amigos. Como um mercado arrumado por semelhança: limões ao lado de limas, frutas vermelhas ao lado de frutas vermelhas — o que mantém companhia parecida acaba na mesma prateleira.
A virada: dá pra fazer aritmética com o sentido.

A virada: dá pra fazer aritmética com o sentido.

vkingvman+vwomanvqueen\mathbf{v}_{\text{king}}-\mathbf{v}_{\text{man}}+\mathbf{v}_{\text{woman}}\approx\mathbf{v}_{\text{queen}}
Como o sentido agora é geometria, as direções carregam conceitos. O passo de man pra woman é o mesmo passo de king pra queen — então subtraia man, some woman, e você aterrissa bem ao lado de queen. Ninguém construiu um eixo de 'gênero'; ele simplesmente surgiu. Como dois rastros de esqui paralelos: a seta que liga um par corre paralela à que liga o outro.
Junte tudo: toda uma geografia do sentido, desenhada sozinha.

Junte tudo: toda uma geografia do sentido, desenhada sozinha.

Algumas centenas de números por palavra, arrumados por companhia, comparados por ângulo — e daí cai um mapa: os bairros são temas, as direções são conceitos que ninguém nomeou (tempo verbal, plural, sentimento), e o modelo traçou cada linha sozinho, a partir de texto cru. Isso é um embedding — o sentido virado num lugar que dá pra medir. Como abrir um geodo: uma pedra sem graça por fora, um mundo estruturado de cristal por dentro.
🌱 Se o sentido vive nas brechas, o que preenche as vazias?

🌱 Se o sentido vive nas brechas, o que preenche as vazias?

O modelo nunca leu uma definição. Ele aprendeu o que as palavras significam só a partir de quais palavras ficam perto delas — o sentido vivendo nas distâncias entre os pontos, nunca dentro de nenhum deles. Então o sentido de uma palavra é algo que ela tem, ou só uma teia de quão longe ela está de todas as outras? E lá, nas extensões vazias desse espaço, onde nenhuma palavra jamais pousou — será que esperam ali pensamentos para os quais a gente simplesmente nunca cunhou uma palavra?
toque →deslize ↑ para maisdeslize ↓ para sair